24 Heróis
No passado dia 5, o jornal 24 Horas publicou um suplemento comemorativo do seu 4º aniversário. Neste suplemento, fez desfilar uma galeria de 24 Portugueses, entre os quais alguns nomes conhecidos, como Luís Figo, Felisberto Silva ou o "Zé Maria" do BB, e também outros, menos conhecidos - ou completamente anónimos - como Jesus Seba (futebolista), Sandra Canadelo (cobaia em farmacologia) ou Faustino Sousa (massagista cego).
A páginas VI, deparo com uma cara (minha) conhecida: José Luís Gomes. Ao lado da sua fotografia, a duas colunas, o texto:
Antes de ir para Timor dar aulas de Português, José Luís Gomes, 32 anos, já era um herói, como são todas as pessoas que lutam pela vida. Um ano antes de partir, estava no desemprego. Recebeu o rendimento mínimo garantido, fez traduções, lutou pelo direito dos professores ao subsídio de desemprego.
Um ano depois de Timor, o ciclo repete-se para este licenciado em Português e Italiano pela Universidade de Coimbra, a residir em Aveiro. A diferença é que já tem direito ao subsídio de desemprego. Valeu a pena a luta...
José Luís esteve em Timor de Setembro de 2000 a Julho de 2001. Ensinou português a 200 crianças da escola pré-secundária de Wailili, no distrito de Baucau. Foi ganhar cerca de 1945 euros (390 contos) por mês.
Teve uma estreia memorável. "Participei numa cerimónia de desluto, onde dancei com a actriz brasileira Lucélia Santos, a Escrava Isaura".
Mas a realidade que o esperava era dura. "A minha escola foi queimada duas vezes, por grupos de jovens ociosos, vítimas da influência indonésia. Desapareceu tudo..."
José Luís nunca mais esquecerá a inscrição que encontrou no qudro negro, quando lá chegou: "A minha escola é bonita porque fica perto da estrada". O problema é a estrada, que liga Baucau a Viqueque, ser um local de passagem. Todas as visitas oficiais eram ao lado da escola e ninguém parava ali".
E os meninos, aprenderam a nossa língua? "Ao fim de um ano lectivo, não conseguiam ter uma conversa em português. Isto deve servir de reflexão". Na região, só se fala o dialecto de macassai. "O aparelho fonador deles não está adaptado para a nossa língua. Depois, os meninos andavam quatro horas a pé para chegar à escola, sem comer". Não havia programas ou planos curriculares, "era o improviso total".
Agora, Timor está longe, o serviço ao Estado português está prestado. Valeu a pena? "Sim, valeu. Sobretudo pelas crianças timorenses... de uma alegria e de uma ternura incríveis".
(assinado por Rute Coelho)
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