sábado, 27 de maio de 2006

Chusma de mercenários e parasitas

José Mattoso não burila termos quando apresenta a situação que se lhe deparou em Timor: "ir ao território", referiu ele na comunicação de despedida, "não é só visitar o cenário de uma interminável história de crueldade". Para o historiador, "é também assistir ao espectáculo, muito mais disfarçado, do monstruoso negócio internacional montado com justificações pseudo-altruístas para desviar, em favor de uma chusma de mercenários vindos de países ricos e pobres, a torrente de dinheiro criada pela chamada ajuda internacional". Segundo ele, "neste ponto a ONU e uma grande parte das ONGs entendem-se às mil maravilhas. Os especialistas da burocracia internacional criaram uma máquina perfeita em tudo menos na efectiva ajuda e que ainda por cima se tornou verdadeiramente indispensável". A sua amargura aumenta quando "ingenuamente se pensa reforçar a ajuda humanitária por meio de contribuições generosas" e se está, porventura, "apenas a sustentar os piores parasitas de todos, aqueles que vivem do sofrimento alheio".

José Mattoso, in jornal Público, 20.12.01

Página de opinião do sítio


As minas de opinião
Perguntava-me há dias uma amiga, portuguesa, do alto da sua inocência:
_ Mas afinal, quais são ao certo as riquezas de Timor? O que é que lá existe?

Tentemos responder, calma e pacientemente. Pois. Além do petróleo, dos diamantes que ainda não apareceram, do ouro que parece que é pouco? Além do turismo que ainda não existe, e das pérolas, e dos cocos, e do sisal, e do sândalo, e do café? Sem falar dos recursos marinhos, e coisas assim?
Bem, a principal riqueza de Timor-Leste, o seu mais espantoso recurso natural, a sua mais profunda mina, cara amiga, é a conversa. O tema, o paleio, o blábláblá. Eis, em suma, aquilo que mais rende, não propriamente aos timorenses ou a Timor, mas à imensa, variada, heterogénea chusma de "analistas" que se arrogam o direito de falar e de escrever sobre o assunto, a chamada "questão timorense".
Falar sobre Timor é o mais inesgotável recurso daquela meia ilha, algures no Pacífico. Fascínio, cara amiga. Na razão directa do sangue que escorre pelas ruas, e na inversa da paz política local. Digamos que o chorrilho de opiniões, a torrente de considerações, filtrada com areia em pratos rombos, o número de garimpeiros da verdade, enfim, depende essencialmente de um único factor: a cor daquele rio, novo El Dorado dos europeus bem-pensantes. Quanto mais vermelha e espessa é a água que corre, maior a probabilidade de se acharem pepitas lógicas, pérolas de clarividência, gemas de verdade absoluta.
Água vermelha, minha amiga. Pedras preciosas. Vermelhas de sangue. As minas de Salomão que existem em Timor, exploradas à distância, garimpadas por telepatia, constituem a mais inesgotável riqueza daquele insignificante paraíso.

terça-feira, 23 de maio de 2006

A Galp não conseguiu ganhar os dois blocos petrolíferos no mar de Timor. Curiosamente, quem ganhou foram os italianos da ENI, que são accionistas de referência da petrolífera portuguesa.

A Galp concorreu através de um outro consórcio, liderado pela Petronas, da Malásia, e onde estava também a brasileira Petro-Brás. Ao todo, o Governo de Timor abriu 11 leilões para blocos petrolíferos.

A Galp só concorreu a dois, mas perdeu. A ENI é para já a grande vencedora, porque se mostrou disposta a pagar mais contrapartidas à economia timorense
TVI


Díli - A petrolífera portuguesa Galp Energia perdeu a exploração petrolífera no Mar de Timor para a italiana ENI, sua accionista, de acordo com um comunicado sobre os vencedores do primeiro concurso internacional divulgado esta segunda-feira pelo gabinete do primeiro-ministro timorense, Mari Alkatiri.

A ENI e a indiana Reliance Industries são as companhias que Timor-Leste considerou como aquelas que reúnem as «melhores condições e vantagens» para o país, lê-se em nota enviada ao Jornal Digital. A italiana ganhou o direito a explorar cinco blocos e a Reliance Industries apenas um.

O relatório final da comissão de avaliação das propostas do concurso público para futuro exploração petrolífera das áreas de contrato «offshore» de Timor-Leste foi hoje ratificado por Mari Alkatiri, que também é ministro dos Recursos Naturais, Minerais e da Política Energética.

«O processo de avaliação destinava-se a apurar quais as ofertas que reuniam melhores condições e vantagens para cada área de contrato», é referido no documento.
(...)
Jornal Digital


A petrolífera portuguesa integrava um consórcio, juntamente com a Petronas e a Petrobras, candidato à exploração em dois dos seis blocos 'off-shore' no Mar de Timor.

Os vencedores deste primeiro concurso internacional de exploração petrolífera em Timor-Leste foram a italiana ENI, que ganhou o direito a explorar cinco blocos, e a indiana Reliance Industries.

A escolha foi feita com base nas melhores condições e vantagens para Timor-Leste. No caso do bloco C, a que o consórcio da Galp concorreu, o retorno oferecido a Timor-Leste era apenas de um milhão de dólares enquanto a ENI ofereceu quase cinco vezes mais.

Até dia 20 de Junho, as empresas vencedoras terão de celebrar um contrato de partilha de exploração com o Ministério dos Recursos Naturais, Minerais e da Política Energética.

O Estado timorense já arrecadou, apenas na fase de concurso, cerca de dois milhões de euros devido às taxas de inscrição e ao levantamento de cadernos de encargos.
SIC





Gap Timor

Mesmo não percebendo nada de economia, e ainda que esteja comodamente sentado, em Portugal, e (já) não dando o corpo ao manifesto em Timor, gostaria de colocar aqui algumas questões a respeito deste assunto.

Em primeiro lugar, seria interessante saber o que significa, ao certo, a expressão "pagar mais contrapartidas à economia timorense". A ENI, vencedora do concurso internacional de exploração dos blocos petrolíferos no mar de Timor, ofereceu cinco milhões de dólares e vai pagar cinco milhões de dólares, ou apenas ofereceu cinco milhões de dólares?

Seguidamente, e não conhecendo as respostas nem a uma nem a outra daquelas coisas, duas novas questões se levantam: é ou não é o Estado português accionista da Galp? É ou não é Portugal um dos chamados países doadores de Timor?

Já agora, e a propósito, qual é a comparticipação da Itália no esforço de reconstrução de Timor-Leste, nos planos económico, militar, social, diplomático, educacional, cultural ou qualquer outro?

Portugal não deve, nem pode, evidentemente, passar de país doador a país cobrador das doações que faz. E não é isso que está sequer em causa, como se vê, até porque o governo português não reagiu e muito provavelmente não reagirá a esta intrigante decisão de Díli. Não, de facto a questão não é essa; é outra.

É uma questão terminológica, semântica e, por arrastamento, linguística, para não dizer política: se realmente "a escolha foi feita com base nas melhores condições e vantagens para Timor-Leste", no futuro, em abstracto e numa base promissória, importará saber se o apoio português a Timor-Leste, no passado e no presente, em concreto e com bases sólidas, fará a partir de agora algum sentido.

segunda-feira, 8 de maio de 2006

quinta-feira, 4 de maio de 2006

Notícias de Timor...
...em Português (Jornal de Notícias Maubere) e em Tétum (Jornal Liafoun Maubere).


E para aprender alguma coisa de Tétum, pode ser também no mesmo site, da autoria de Lelobere (José Pereira).