Médico anestesista caçador de notas antigas
JOÃO PEDRO FONSECA
Hans Lafer é um homem bem apresentado, na casa dos 40, conversador nato, bem disposto, brincalhão. É anestesista, trabalha num grande hospital na Alemanha mas conhece os cantos mais recônditos do planeta. A sua profissão, confessava nas noites quentes de Abril de 1999, nas mesas do jardim do Hotel Turismo, em Díli, era uma chatice. O que lhe dava prazer (e proveito) era mesmo o negócio de moedas e notas antigas.
Não, não era coleccionador. Percebia de numismática tanto como os coleccionadores, mas para ele são meros objectos que valem muito, que podem valer milhões.
Ofereceu-se como voluntário para os Médicos Sem Fronteiras e trabalhou durante dois meses em Timor-Leste num dos piores momentos que se viveram no território. Em Abril de 1999 dava-se o triste espectáculo montado pelos generais indonésios fieis ao regime de Suharto de formação de milícias com o único propósito de amedrontar o povo para que se deixassem dessa aspiração de quererem ser independentes. A ordem era matar por matar. E os bandidos cumpriam. Lafer era um dos médicos que ajudavam a tratar as mazelas dos que sobreviviam aos ataques cobardes.
Voluntário, solidário, um médico que merecia uma homenagem pela sua dedicação, em troca de nada. Seria este o pensamento de todos os seus amigos e próximos. E eu também pensava assim, até que o fui conhecendo melhor.
Hans colocou um anúncio no jornal local, colou papéis em edifícios centrais, prometendo comprar a bom preço a quem lhe trouxesse notas e moedas antigas de Timor-Leste. Às vezes faziam fila à porta do hotel à sua espera. Gente humilde, muito humilde. A maior parte das pessoas não fazia ideia do valor daquelas notas e moedas. Muitas guardaram-nas com enorme carinho como recordação da administração portuguesa. Hans ficava ansioso, «então mostre lá o que tem», de olhos esbugalhados virados para as mãos de quem desembrulhava os saquinhos com as notas.
Quando havia material bom, a primeira coisa que fazia era desvalorizar. Tentava dar o menos possível pelas notas. «Não, isto vale pouco, dou-lhe dez dólares e já é uma sorte». Eu assistia a tudo e, confesso, não gostava nada do que via. Principalmente quando me dizia, logo a seguir ao negócio feito, que tinha conseguido ganhar umas massas valentes com a troca. Os pobres timorenses lá iam, a olhar para os míseros dólares, alguns satisfeitos, sem perceber da missa a metade.
Outras vezes saía-lhe gente sabida, que lhe virava as costas quando via o pagamento que Hans queria fazer. Ficava furioso, e eu gozava, discretamente...
Um dia fiquei possesso com a conversa do homem. Lamentava que estava há dois meses sem actividade sexual e que ia ver como funcionava o esquema das prostitutas javanesas, no bairro Pité. Obviamente foi o tema de conversa quando nos encontrámos de novo. «Então, como correu a coisa?» Estava furibundo, disposto a mais uns tantos meses sem sexo. «E porquê?» Então não é que as raparigas lhe pediram 200 mil rupias pelo serviço, o equivalente, na época, a uns 25 dólares? «São loucas? 25 dólares? Insultei-as, vão roubar os indonésios, a mim não me fazem de parvo!»
Soltei umas gargalhadas. Imaginei tudo, que as mulheres tivesse mau aspecto, que o sítio fosse nojento, que se tivesse arrependido, que não tivesse preservativos, sei lá. Nunca pensei que o dinheiro fosse a razão para quem andava desesperado.
E, em tom provocatório, perguntei se na Alemanha há alguma prostituta que leve 25 dólares. E a resposta pronta: «Aprende comigo, que sou muito viajado. O preço das coisas tem de ser sempre adaptado à economia local. Nunca mistures as coisas. Então achas que ia pagar por uma hora de sexo o mesmo que ganha um funcionário público timorense num mês? Só se fosse louco...»
Os episódios repetiram-se. Nunca vi ninguém tão agarrado ao dinheiro. Quando se falava da realidade timorense do momento, das matanças, dos homens estropiados que lhe apareciam no hospital cortados à catanada, isso era irrelevante para ele. «Tu não imaginas o que eu já vi em países em guerra civil. No Ruanda, por exemplo, vi a matar da forma mais cruel que se possa imaginar, vi queimar uma pessoa, devagarinho. Vi enterrarem pessoas vivas, já vi de tudo. Isto em Timor... é uma brincadeira».
Fiquei chocado com a frieza do homem. Nunca vira coisa assim. Todos os aspectos positivos de Hans que eu registara na minha memória afectiva apagaram-se. Pior ainda quando um dia me diz que vai abandonar Timor-Leste. «Fiz o negócio da minha vida. Apareceu-me um tipo com umas notas em óptimo estado, que valem dezenas de milhares de dólares. Posso ficar um ano sem trabalhar». Ajudar os timorenses? Ser solidário? Irrelevante...
Diario de Notícias, 11.05.03