terça-feira, 13 de maio de 2003

Médico anestesista caçador de notas antigas


JOÃO PEDRO FONSECA

Hans Lafer é um homem bem apresentado, na casa dos 40, conversador nato, bem disposto, brincalhão. É anestesista, trabalha num grande hospital na Alemanha mas conhece os cantos mais recônditos do planeta. A sua profissão, confessava nas noites quentes de Abril de 1999, nas mesas do jardim do Hotel Turismo, em Díli, era uma chatice. O que lhe dava prazer (e proveito) era mesmo o negócio de moedas e notas antigas.

Não, não era coleccionador. Percebia de numismática tanto como os coleccionadores, mas para ele são meros objectos que valem muito, que podem valer milhões.

Ofereceu-se como voluntário para os Médicos Sem Fronteiras e trabalhou durante dois meses em Timor-Leste num dos piores momentos que se viveram no território. Em Abril de 1999 dava-se o triste espectáculo montado pelos generais indonésios fieis ao regime de Suharto de formação de milícias com o único propósito de amedrontar o povo para que se deixassem dessa aspiração de quererem ser independentes. A ordem era matar por matar. E os bandidos cumpriam. Lafer era um dos médicos que ajudavam a tratar as mazelas dos que sobreviviam aos ataques cobardes.

Voluntário, solidário, um médico que merecia uma homenagem pela sua dedicação, em troca de nada. Seria este o pensamento de todos os seus amigos e próximos. E eu também pensava assim, até que o fui conhecendo melhor.

Hans colocou um anúncio no jornal local, colou papéis em edifícios centrais, prometendo comprar a bom preço a quem lhe trouxesse notas e moedas antigas de Timor-Leste. Às vezes faziam fila à porta do hotel à sua espera. Gente humilde, muito humilde. A maior parte das pessoas não fazia ideia do valor daquelas notas e moedas. Muitas guardaram-nas com enorme carinho como recordação da administração portuguesa. Hans ficava ansioso, «então mostre lá o que tem», de olhos esbugalhados virados para as mãos de quem desembrulhava os saquinhos com as notas.

Quando havia material bom, a primeira coisa que fazia era desvalorizar. Tentava dar o menos possível pelas notas. «Não, isto vale pouco, dou-lhe dez dólares e já é uma sorte». Eu assistia a tudo e, confesso, não gostava nada do que via. Principalmente quando me dizia, logo a seguir ao negócio feito, que tinha conseguido ganhar umas massas valentes com a troca. Os pobres timorenses lá iam, a olhar para os míseros dólares, alguns satisfeitos, sem perceber da missa a metade.

Outras vezes saía-lhe gente sabida, que lhe virava as costas quando via o pagamento que Hans queria fazer. Ficava furioso, e eu gozava, discretamente...

Um dia fiquei possesso com a conversa do homem. Lamentava que estava há dois meses sem actividade sexual e que ia ver como funcionava o esquema das prostitutas javanesas, no bairro Pité. Obviamente foi o tema de conversa quando nos encontrámos de novo. «Então, como correu a coisa?» Estava furibundo, disposto a mais uns tantos meses sem sexo. «E porquê?» Então não é que as raparigas lhe pediram 200 mil rupias pelo serviço, o equivalente, na época, a uns 25 dólares? «São loucas? 25 dólares? Insultei-as, vão roubar os indonésios, a mim não me fazem de parvo!»

Soltei umas gargalhadas. Imaginei tudo, que as mulheres tivesse mau aspecto, que o sítio fosse nojento, que se tivesse arrependido, que não tivesse preservativos, sei lá. Nunca pensei que o dinheiro fosse a razão para quem andava desesperado.

E, em tom provocatório, perguntei se na Alemanha há alguma prostituta que leve 25 dólares. E a resposta pronta: «Aprende comigo, que sou muito viajado. O preço das coisas tem de ser sempre adaptado à economia local. Nunca mistures as coisas. Então achas que ia pagar por uma hora de sexo o mesmo que ganha um funcionário público timorense num mês? Só se fosse louco...»

Os episódios repetiram-se. Nunca vi ninguém tão agarrado ao dinheiro. Quando se falava da realidade timorense do momento, das matanças, dos homens estropiados que lhe apareciam no hospital cortados à catanada, isso era irrelevante para ele. «Tu não imaginas o que eu já vi em países em guerra civil. No Ruanda, por exemplo, vi a matar da forma mais cruel que se possa imaginar, vi queimar uma pessoa, devagarinho. Vi enterrarem pessoas vivas, já vi de tudo. Isto em Timor... é uma brincadeira».

Fiquei chocado com a frieza do homem. Nunca vira coisa assim. Todos os aspectos positivos de Hans que eu registara na minha memória afectiva apagaram-se. Pior ainda quando um dia me diz que vai abandonar Timor-Leste. «Fiz o negócio da minha vida. Apareceu-me um tipo com umas notas em óptimo estado, que valem dezenas de milhares de dólares. Posso ficar um ano sem trabalhar». Ajudar os timorenses? Ser solidário? Irrelevante...

Diario de Notícias, 11.05.03

Blogo de serviço


O Blogo, excelente porque extremamente simples ideia, vai prestando um bom serviço aos "bloguistas" portugueses, e regista simpaticamente o endereço do Blogger de Timor. No entanto, este foi encaixado na "categoria" interessantes, quando existe uma outra "categoria" designada por serviço público. Sem comentários aos weblogs incluídos nesta categoria, devo confessar que - embora agradecendo o adjectivo "interessante" - o Blogger de Timor, enquanto complemento do Sítio, não é outra coisa: serviço público. Ou, pelo menos, é essa a intenção.


domingo, 11 de maio de 2003

Apelo


A fim de todos podermos ajudar a Joaninha, a bébé de 2 aninhos que está com leucemia no IPO, divulguem por favor este e-mail:

Pede-se a todas as pessoas que possam doar sangue do tipo "O RH-", que deixem o seu contacto (nome e número telefone) no seguinte endereço:

Desta forma assim que for necessário os pais terão maior facilidade em recorrer de imediato à ajuda necessária.
Em nome dos pais e amigos... Muito obrigada


recebido por email, de Carmen Melo


sábado, 10 de maio de 2003

Porque Não Me Associo à Greve do Ensino Secundário


Sexta-feira, 09 de Maio de 2003

Frequento a Escola Secundária de Santa Maria, em Sintra, onde sou aluno do 12º ano do curso geral de humanidades. Acabo de verificar que a triste cena de anos transactos se repete: mais uma manifestação de estudantes do secundário, mais um circo lamentável. Acredito na importância da luta pelos direitos que são inatos à nossa existência, nos quais se inclui o acesso a uma educação de qualidade. Contudo, creio isso não se desenvolve com este género de infantilidades, que, na minha óptica, não têm qualquer coerência e cabimento.

Eis as razões que me levam a não aderir a esta greve:

A maior parte dos alunos que participa nestas manifestações fá-lo para seguir o rebanho e aproveita assim o dia livre para passear por Lisboa. Mais grave ainda, e conforme se viu em trabalhos jornalísticos de anos anteriores, os manifestantes não sabem porque participam: respostas vagas, imprecisas e até hilariantes ficaram registadas para a posteridade;

Acredito firmemente que esta e as demais "manif's" estão altamente politizadas, com forças partidárias mexendo os cordelinhos pelas mãos dos seus "agentes" (o que, do ponto de vista legal é permitido, mas já não o é moralmente);

Apesar de ter uma posição algo crítica em relação à reforma educativa que se segue, penso que os mentores da "luta" (que depois transmitem as conclusões a que chegaram às suas fiéis "ovelhas") pegaram nas questões erradas. Não são valorizados pontos positivos como a diminuição da carga horária ou a aposta no ensino tecnológico (o que para alguns é escandaloso - somos um país de doutores em que parece que todos têm de fazer um curso superior, mesmo sem qualquer vocação: só assim as pessoas podem ter reconhecimento social...), a valorização da qualidade e da avaliação (que, em última análise, só beneficiará o aluno), a diminuição do número de exames, a abolição das provas globais. Assusta-me o relegar para segundo plano da Literatura (enquanto disciplina de opção) e das línguas clássicas. Penso que se deveria reconhecer o papel da Matemática (por muito que me custe, creio que deveria ser obrigatória para todas as áreas). Mas não é isto que se vê nos cartazes... por exemplo, veio à baila a importante mas instrumentalizada e mal analisada educação sexual, cabeça de cartaz já há alguns anos; para os dirigentes associativos, o resto parece constituir "lana caprina"!

O uso desproporcionado das greves conduz à sua banalização; quando for realmente necessário fazê-las, talvez a opinião pública faça orelhas moucas. Chega de greves estúpidas, de vigílias despropositadas, de berros pueris!

Os alunos (um dos quais eu) são confrontados com a(s) greve(s) dias antes desta(s). Como é óbvio, não é possível que um aluno participe nestas suficientemente esclarecido quando recebe um papel (normalmente no próprio dia) com dois ou três tópicos que presidem à luta, por mais elucidativos que sejam. Se as Associações de Estudantes não têm sequer a preocupação de promover acções de esclarecimento sobre aquilo que já deliberaram, o que dizer da criação de fóruns de discussão. Não, há que "talibanizar" a questão, apresentado uma versão única, irrevogável e monolítica das ideias que servem de mote à manifestação, feita por alguns "iluminados".

Quem foram os alunos que consultaram a proposta de revisão curricular? A esmagadora maioria não o fez, incluindo, estou certo, os próprios dirigentes associativos. O "diz que disse", por melhores que sejam as fontes, não chega quando se trata de uma questão desta magnitude.

Os alunos que se decidem associar, ao abrigo da legitimidade conferida pela liberdade de expressão, a actividades de índole contestatária devem, contudo, ponderar a sua participação, visto que estão a ser face visível de toda uma comunidade. Aliás, os meios de comunicação social têm por hábito mostrar apenas essa posição (o que é, até certo ponto, compreensível), parecendo assim que todo e qualquer aluno do secundário pactua com este manifestação. Se assim fosse, até não andaria muito longe da verdade a expressão "geração rasca" (com a qual não concordo; acredito no nosso potencial e foi isso que me levou a redigir estas linhas).

Se tal o justificasse, não hesitaria em juntar-me a qualquer movimento estudantil de descontentamento. Um dos casos é o flagrante mau estado em que se encontra a minha escola, superlotada, sem espaços exteriores de desporto e sem obras de fundo há anos.

Espero que se coloquem os problemas em discussão e que se promova o debate de ideias; espero ver os representantes dos estudantes mais ponderados e com um faro político mais apurado (por favor, não descredibilizem a nosa imagem...); espero antes que todos participem de uma forma responsável mas não menos intensa e acalorada na construção de uma escola melhor.

Bernardo Sousa de Macedo, 17 anos

Sintra


sexta-feira, 9 de maio de 2003


notícias da Agência Lusa exclusivamente sobre Timor
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Timor-Leste:Governo pede disciplina e profissionalismo aos funcionários públicos


Díli, 09 Mai (Lusa)

Apelos à disciplina, à assiduidade e ao profissionalismo, a par de queixas pela falta de condições de trabalho e carências de vária ordem, dominaram a primeira reunião geral do funcionalismo público timorense que hoje decorreu em Díli.
Convocado pelo primeiro-ministro, Mari Alkatiri, e de carácter obrigatório para todos os quadros do Estado, o encontro registou intervenções de dezenas de funcionários de vários departamentos do aparelho de Estado.
Antes do período de perguntas e comentários, o chefe do governo lembrou que 2003 é o ano da administração pública e da justiça em Timor-Leste, realçando a necessidade de consolidar a competência e a capacidade dos quadros públicos e apelando para que se mantenham disciplinados e profissionais.
"Para que todos os funcionários saibam cumprir as suas funções, disse Alkatiri aos cerca de 2.000 quadros públicos, é necessário que sempre se pautem pela disciplina, pela assiduidade, pelo sentido de responsabilidade e pelo apartidarismo".
Citando o exemplo do próprio encontro de hoje, que começou com 40 minutos de atraso, Mari Alkatiri considerou inaceitável que os funcionários cheguem atrasados e não cumpram as suas funções quando praticamente todo o elenco governativo ali se encontrava.
"É óbvio que sentimos actualmente muitas dificuldades e carências, e continuamos a necessitar do apoio internacional. Mas todos temos de trabalhar com zelo e disciplina, mesmo que com dificuldades", afirmou Alkatiri.
"O Estado - sustentou - tem de ter vida institucional, cultural, actuar com competência, cumprindo as suas funções adequadamente, para servir o povo".
Alkatiri não se esqueceu da imprensa, vincando a necessidade de os funcionários públicos respeitarem o "sigilo profissional" e deixarem de "dar informações confidenciais aos jornalistas".
No período consagrado aos comentários, individualidades mais ou menos conhecidas de contestação ao governo queixaram-se de situações como a utilização abusiva das viaturas de serviço fora das horas de serviço, ausência de cartões de identidade e folhas de ponto.
Januário Soares, um funcionário do Ministério da Educação e regular contestatário do governo, criticou a contratação de timorenses que outrora trabalharam para a administração indonésia.
Jacinto Costa, também do sector educativo, aproveitou a sua intervenção para criticar a televisão pública, considerando que se tornou "numa voz da oposição, não deixando ouvir o governo".
Apelos a mais formação técnica e de língua, aumentos salariais e a criação de um banco timorense, marcaram outras intervenções.
Foram igualmente feitas algumas alusões a corrupção e nepotismo, sem casos concretos ou informações precisas, e defendeu-se a preparação de um "calendário nacional da função pública".
Em tom de balanço, depois das mais de duas horas e meia de perguntas e respostas, o primeiro-ministro admitiu à Lusa que a reunião demonstrou a necessidade de mais debates a nível de cada ministério.
"Penso que ainda há muito trabalho a fazer. É o primeiro encontro do género. Temos agora que aprofundar a consciência da disciplina", afirmou.
"O objectivo mais geral não foi bem entendido pela maioria mas quando se começa é assim", admitiu.

ASP Lusa



quinta-feira, 8 de maio de 2003

TIMOR LORO SAE: PARTEIRAS ANDAM DE MOTO!



Timor Loro Sae: parteiras andam de moto!O Organização das Nações Unidas ofereceu 80 motos às parteiras do Timor Loro Sae para que estas chegam aos seus destinos atempadamente, para reduzir a maior incidência de mortes infantis na região da Ásia/Pacífico.
Uns 850 bebés em 100,000 nados vivos morrem em Timor Loro Sae, de acordo com as estatísticas do Fundo Populacional da ONU (FPONU), enquanto somente 25% dos partos são assistidos por uma parteira, o restante sendo efectuado em casa sem qualquer assistência médica.
O Chefe das Operações do FPONU, Daniel Baker, disse à imprensa em Dili que “não há um número suficiente de parteiras no país”, acrescentando que “Porque as áreas assistidas pelas parteiras é tão extensiva, só podemos fazer alguma diferença se expandirmos o seu alcance. Por isso as motos”.
Se o visitante ao país mais novo do mundo estiver numa estrada rural e ouvir uma moto a abrir, é melhor atirar-se para a berma porque vem aí uma parteira a 200 a hora!

2003-04-28
Lao MENDES
PRAVDA.Ru
DILI TIMOR LORO SAE


quarta-feira, 30 de abril de 2003

Irá dar molho?


Se for o caso, ou como contributo para que o seja, aqui ficam alguns endereços ilustrativos, documentativos e nada putativos: